Trabalhei um ano na Justiça Federal de Porto Alegre (foto acima), em 2005. Víamos a Vila Chocolatão pela janela do oitavo andar. Os funcionários da JF faziam muito trabalho voluntário com os moradores, em um projeto contínuo chamado Justiça Solidária que atendia as famílias residentes nos casebres do entorno.
A favela ocupa terrenos federais, um deles destinado para futura ampliação da Justiça Federal e estacionamento, além de ruas de acesso entre os prédios do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e da própria Justiça Federal.
A maior resistência das famílias da Chocolatão à mudança sempre foi o trabalho: catadores de papel que são, encontravam nos prédios públicos circundantes papel e recicláveis o suficiente para sobreviverem.
Fico feliz com a remoção das famílias. É uma questão de resgate da dignidade ferida, valorização do indivíduo e resolução de dois problemas brasileiros históricos: um sistema capitalista perverso que exclui muito mais do que incentiva o crescimento, e um Estado ineficiente que, viciado em muitos anos de política econômica falha, não conseguia oferecer serviços básicos a todos os brasileiros. O fim da Vila Chocolatão é tão somente uma correção de curso e por isso mesmo é histórico.
Nos anos anteriores à Copa do Mundo na África do Sul, o governo de lá removeu seus pobres para contêineres na periferia das cidades. Nos anos anteriores à Copa do Mundo no Brasil, o governo — aliado às ONGS e empresas — remove os pobres para condições muito melhores do que as originais.
Isto é social democracia. Isto é capitalismo inclusivo.
Porto Alegre está de parabéns.