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VOLTA, MEU FILHO
 

Essa poesia foi escrita há três anos. Simbolizava e simboliza a suposta perda do convívio do pai com o filho, por não se entenderem.

Linguagens e hábitos diferentes, mas principalmente uma cultura paternal não querendo ser abandonada para acompanhar a evolução do veloz mundo jovem, bem diferente daquele vivido por si próprio.

O não querer acompanhar as rápidas mudanças do chamado “mundo de hoje” pode ocasionar rupturas entre pais e filhos. Essa ruptura não precisa ser física. Conheço muitos exemplos em que os filhos jovens não perderam o contato com os pais, mas ficaram presos às redomas psicológicas de proteção sem saber se defender do mundo exterior ou das regras rígidas impostas durante suas infâncias e juventudes.

Rompidas as redomas, ao quererem fazer as coisas pelo seu próprio modo, os jovens já adultos vêem-se diante de um mundo diferente daquele imaginado, protegido, idealizado ou conduzido pelos seus pais.

As histórias estão aí para serem confirmadas. Não sei responder o que causa mais estragos. A ruptura física – que um dia pode ser consertada – ou a psicológica que pode causar problemas futuros envolvendo os filhos dos lares desfeitos pela impossibilidade de os pais não terem podido viver experiências que gostariam de ter vivido antes das uniões realizadas.

Cabe uma ressalva de uma terceira causa de “separação” que causa estragos difíceis de serem reparados: o da “obrigação” dos filhos serem o espelho dos pais em suas qualificações profissionais, aptidões ou ainda níveis de inteligência. Ou pior ainda, do  desejo ou imposição que os filhos sigam o mesmo caminho dos pais.

De qualquer forma, sobra a dor da separação. Cabe aos que têm mais juízo, sejam pais ou filhos, de retomarem o statos quo, agora porém, de uma forma mais leve e sem culpas.     


Volta, meu filho – Rui Pizzato - 2007

Volta, meu filho. Volta.
A toalha molhada atirada na cama
Não mais me incomodará.
A luz acesa do teu quarto,
Acesa ficará.
Sinto falta da bagunça das tuas roupas,
E do jornal e revistas, no chão deixados.

Volta, meu filho. Volta.
Teu mundo não é o mundo
Que eu erroneamente queria que fosse.
Respeitarei tua maneira de pensar,
Teu jeito de andar,
E o aparente jeito dos problemas te desligar.

Volta, meu filho. Volta.
Não quero te perder
Por não saber te entender.

Ensina-me como és,
E me ajuda a compreender
Como teu mundo funciona,
E eu mostrarei como funciona o meu.

Volta, meu filho. Volta.
Não mais vou achar
Que dificuldade é sinônimo de fraqueza,
E minha irritação em gestos de amor
Se transformará.   

Volta, meu filho. Volta.
A escova deixada em cima da pia do banheiro
Não mais me incomodará (aliás sinto falta dela).
Prometo ouvir mais que falar,
Sentir, mais que mandar,
Sorrir, mais que gritar.

Volta, meu filho. Volta.
Sinto falta do teu cheiro,
Do abraço que não te dei,
Do bate-papo que evitei,
Da música que contigo não ouvi,
Das caminhadas que contigo não fiz.

Volta, meu filho. Volta.
Antes que eu não consiga mais voltar.

 

Rui Carlos Pizzato

E-mail: ruipizzato@brazservice.com.br

 


Porto Alegre, 22 de Março de 2010.

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Rui Carlos Pizzato - Engenheiro Mecânico, 66 anos, executivo de empresas, apaixonado pelo comportamento humano e palestrante. Autor do livro "Fábrica de Sonhos", Editora Nova Prova - Livraria Sulina.

 
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