A realidade citada a seguir não é nova. Na verdade, nasceu com a razão. Nossos olhos custaram a ver que o mundo sempre realizou seus movimentos - e continuará realizando - segundo esta teoria.
Duas leis da física, muito tempo depois, vieram dar forma a esta teoria: dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo espaço; os gases ocupam, em condições normais, um espaço compatível com o volume do recipiente a eles destinado.
Defesas ou grandes questionamentos não são necessários para explanar e justificar a tese desta teoria. As observações naturais são reais e por si só, profundas. Do exame dos fatos naturais, surge a luz da realidade. O passo seguinte é sintomático. É querer ver.
Na natureza existem muitos exemplos a serem citados, mas é no campo dos seres humanos que os casos são mais ricos. Em princípio, atendendo às condições naturais dos direitos de cada um, os espaços são os mesmos para todos. No nosso dia-a-dia, porém, as coisas não são tão simples assim.
No campo profissional, mesmo em empresas com organogramas definidos, os limites dos espaços não são claros. As áreas limítrofes entre os departamentos, setores ou divisões são exemplos vivos do que estamos abordando. Quem ocupa esses espaços? Os mais interessados? Os mais rápidos? Ou os espaços permanecem vazios esperando que algum superior diga como preenchê-los em cada caso específico? Quem dita as regras para a ocupação desses espaços? Se estas regras podem ser definidas, por que não demarcar novamente estas áreas e dar um ponto final no assunto?
Iniciando nosso vôo a esse conhecido mundo desconhecido, percebemos que as regras não são claras. Na maioria das vezes não são sequer visíveis. Vez por outra, acordamos no fim do processo quando determinados assuntos foram resolvidos e espaços foram ocupados, com qualidade final discutível. Surgem nessas ocasiões as célebres perguntas: "como não percebemos estes movimentos?" "Faltou experiência e/ou velocidade para detectá-los?" E agora?
Quantos exemplos podemos fornecer ao longo da nossa vivência profissional? Quantos movimentos são executados, posteriormente percebidos e entendidos numa empresa? Semanas, ou até meses após, entendemos o que passou numa determinada ocasião que julgamos, na época, fossem movimentos considerados como normais. Alguns causados por colaboradores que não desejavam "se envolver em assuntos que não lhe diziam respeito". Outros causados por colaboradores que queriam crescer na empresa e não "se importavam de ir além dos seus limites de atuação". Enfrentaram riscos e ocuparam estes espaços.
Os espaços vazios podem também ser pró-ativos, desde que a direção da empresa tenha consciência da existência dos mesmos, devendo elaborar um planejamento específico para que um determinado objetivo seja alcançado. Cabe a um pequeno grupo de pessoas em cada organização realizar tal planejamento. Não podemos permitir que o egoísmo de determinados colaboradores venha, através do desejo do poder, criar espaços negativos, com o intuito de manter a importância dos seus cargos.
No âmbito do aspecto pessoal, o assunto é mais sério, porque envolve o que há de mais nobre no mundo - o próprio eu - . Conheço meus espaços? Estão eles apropriadamente preenchidos nos assuntos que dizem respeito à minha escala de valores? Posso identificar em quais áreas minha avaliação não é convincente? Posso identificar os elos invisíveis que unem as pessoas no âmbito da família ou do local de trabalho? E, melhor ainda, que pessoas eu permito que penetrem no meu espaço? E finalmente, por quê? Por trás desses contratos invisíveis, encontram-se espaços que merecem ser estudados com muito carinho. Alguns bem definidos, que permitimos que sejam preenchidos pela outra parte. Outros que são por nós ocupados sem que saibamos sua causa principal. Acostumamo-nos assim. Certamente conhecemos alguns exemplos de famílias que operam de uma forma difícil de se compreender. Como uma mãe ou pai pode deter um poder tão marcante a ponto de ofuscar a luz de um filho? Os pais ocuparam aquele espaço para manter o poder, ou o filho não foi suficientemente forte para "evitar a invasão do seu espaço"? Como romper esta barreira? Cabe, neste exemplo, aos pais perceberem e recuarem dos espaços que não lhes pertencem, ou aos filhos lutarem para conquistar seus lugares? Espaços vazios foram ocupados. Indevidamente, mas foram.
Poder responder estas perguntas resulta num autoconhecimento gratificante para todos. É a catapulta de que necessitamos para atingir um nível mais digno de auto-estima. Não esqueçamos, porém, que o mundo é dinâmico e mutável. Ao atingirmos este novo nível, podemos nos deparar com vários outros espaços preenchidos. Alguns por vontade, curiosidade ou desejo. Do nosso “eu” partirá a iniciativa de querer preenchê-los. O ciclo inicia novamente. A ação está conosco desta vez. Conseguiremos perceber a porta de entrada do espaço vazio que queremos ocupar? Ao fincarmos nossa bandeira neste novo território, estaremos prejudicando alguém? Caso negativo, vamos em frente porque a teoria dos espaços vazios é inesgotável.
Nossa vida possui espaços vazios cheios e espaços cheios vazios.
Rui Carlos Pizzato
E-mail: ruipizzato@brazservice.com.br
|