É interesante e quase autobiográfico pra quem vê a vida do Cazuza e viveu as angustias dos anos 80 e 90, no programa Por toda a minha vida da rede Globo.
É o reflexo de uma época, de um tempo de descobertas, de leituras, de aventuras, de mundos a serem desvendados por nós após uma ditadura que arrasou com qualquer possibilidade de expressão pura.
Até o momento em que isso é destruído e surge a democracia. Em que as coisas podem ser faladas e vividas.
Assistir ao programa "Por toda minha vida" é fantástico, porque querendo essas referências fazem parte de nós e estamos carregando-as todos os dias. Demonstrando o maior cuidado com a obra e com a vida de um EXAGERADO. E que mesmo que não consigamos entender por nossas heteronormatividades, por nossos pré conceitos estabelecidos por anos de repressão, temos um artista que não teve medo de questionar o mundo e a sua própria vida. Cazuza era mais que um ídolo, foi/é/será um ícone de uma época. Temos aqui o princípio de uma grande revolução, não temos como negar que Cazuza revolucionou uma geração. Fez com que acreditássemos que deveríamos mostrar nossa cara, deveríamos ter uma ideologia, e sermos por que o tempo não para.
Ser feliz, acreditar na vida, nos leva ao desespero da não existência de construir um mundo dentro do padrão e por isso aceitarmos tudo como algo divino e catastrófico. Mas acredito que exista o divino nisso, tá ali nas letras das músicas, na sua própria vida e luta.
A representação da sua vida com os depoimentos de amigos como Pedro Bial que se destaca com sua emoção de ter vivido momentos brilhantes com ele. Os depoimentos de seus pais e especialmente de Lucinha Araújo que foi mãe e sempre deu a dignidade que ele mereceu.
O programa foi perfeito com seus grandes sucessos, suas grandes interpretações e demosntrando que sua carreira teve seu lugar e reconhecimento merecido por todos que um dia escutaram todas as suas músicas ou somente escutaram uma: Brasil, hino de uma geração.
Pois o que queríamos na época e ainda queremos hoje é que o Brasil mostre sua cara.
Veja agora, para lembrar, uma apresentação ao vivo de Cazuza, em Ideologia:
Ricardo Zanella,42, é formado em Letras e especialização em Ética. É professor estadual de literatura e português há 15 anos. Há muito tempo se tornou fotógrafo e, desde 2007, é integrante do Site Porto Imagem.