Ninguém gasta do seu crédito para beneficiar o inimigo. Nao foi nenhum poeta ou filósofo que disse isso; trata-se apenas de um aforismo de minha autoria para expressar algo que é inerente ao ser humano: poupar o seu esforço, quando possível, se desse esforço só o inimigo puder se beneficiar. Por crédito naturalmente entendemos dinheiro, mas há uma outra moeda corrente que permea o convívio social, mesmo em uma hipotética sociedade destituída de moeda: o crédito de uma pessoa com as outras. Expandindo-se esse conceito à administração pública, temos a preocupação constante de um determinado grupo ou corrente política em garantir que os frutos de seus esforços serão devidamente reconhecidos pelos eleitores nos pleitos futuros. Em outras palavras, no caso do falso-federalismo brasileiro: um partido com o poder
federal nas mãos jamais abriria mão de verbas extras para municípios ou estados que não estejam alinhados.
Na semana que passou, Porto Alegre sentiu na carne os efeitos desse sectarismo. Refiro-me ao veto que o Governo Federal fez à possibilidade de custear a implantação do linha 2 do metrô de Porto Alegre dentro do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Copade 2014. O motivo oficial é um suposto temor de que a obra não seja concluída antes do evento, mas com a promessa de que talvez o projeto só entre em uma nova rodada do PAC no ano que vem[1]. Infelizmente, o real motivo desse veto advém do egoísmo político, da vontade de se perpetuar no poder pelo poder, em detrimento do real motivo pelo qual elegem-se mandatários: representar e cumprir os anseios e as necessidades do povo. Ocorre que o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, está sendo cotado como candidato a governador para as eleições
do ano que vem. Isso em si parece pouco para justificar tal golpe do partido que se lhe opõe, mas o ardil é evidente: se o Governo Federal, hoje do PT, apoiar financeiramente um projeto tão importante para a cidade, a população desta acabará associando o seu prefeito, Fogaça, ao sucesso da empreitada do metrô. Ora, obter maioria de votos em Porto Alegre e região metropolitana é fundamental numa corrida ao Piratini, e o PT (que decaiu muito no RS) não pode se dar ao luxo de ver Fogaça rotulado como "o homem que finalmente nos deu o metrô". E foi assim, leitores, que Porto Alegre ficou mais tantos anos distante do sonho de um transporte público de massa que atenda às suas necessidades.
Talvez seja a hora de se projetar soluções de mobilidade urbana que possam ser implementadas em etapas incrementais, de forma que a continuidade e expansão delas seja do interesse dos sucessivos governos, e de forma a não requerer tanta acrobacia política na hora de arranjar o dinheiro. O projeto apresentado para o metrô, infelizmente, era especialmente falho nesse aspecto, com um projeto que só permitiria a operação após a conclusão de 15 quilômetros de escavação, ignorando o fato de que o objeto de demanda da copa encontra-se a menos de 5 quilômetros do centro. Um devaneio ilógico sob qualquer ângulo que se olhe, baseado na idéia de que o único espaço da cidade disponível para pátio de manobras (fundamental para a operação) encontra-se no bairro Agronomia. Uma breve análise da topologia e da ocupação territorial até poderia nos sugerir isso, se ignorarmos, como parecem ignorar os projetistas, que já existe uma
linha de trem na cidade, e que esta linha já tem um pátio de manobras, e que há um vasto espaço desocupado nas proximidades deste pátio. Cabe aplicar aqui o paradigma incremental antes citado: já temos quilômetros de trilhos e equipamentos assentados - será que não se pode aproveitá-los como base?
Trensurb - Linha 1 |
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Linha 2 - Proposta |
Se eu fosse o projetista, teria previsto a operação integrada do Trensurb com o metrô. Ao se aproveitar trilhos já assentados, e pátios já construídos, diminui-se a necessidade de desapropriações e escavações necessárias para se construir a linha, e ganha-se tempo. É óbvio que seria necessário aumentar a capacidade existente no trecho a ser compartilhado - mas isso consiste apenas em expandir o número de plataformas nas estações. E mesmo que se planeje usar trens ou bitolas diferentes para o metrô, implementar adaptações me parece mais em conta do que cavar 10 quilômetros em busca de um pátio de manobras.
Existe um outro motivo ainda pelo qual o projeto da linha dois do metrô é paupérrimo e insuficiente. Previa-se nesse projeto, após concluída a primeira etapa (Centro-Estádio-Agronomia), a construção de um segundo trecho, ligando a Agronomia à Av. Baltazar. Só então seria iniciado o trecho que iniciaria no Triângulo da Assis Brasil e terminaria no Centro, fechando um círculo. A segunda e a terceira etapa tinham previsão de implementação de 10 anos cada. Ou seja, lá pelos idos de 2030 teríamos uma linha de metrô circundando o coração de Porto Alegre. Para quem pensa que está tudo bem, já que pelo menos um dia havemos de ter uma linha de metrô, leia novamente a frase anterior, e pense geograficamente no traçado que descrevi. Como é possível que os projetistas achem que uma linha circular, afastada e
alheia aos novos núcleos de adensamento da cidade possa ser viável ou útil? A linha, como proposta, só serviria para o deslocamento em direção ao bairro Centro, enquanto que todos os outros bairros, alguns mais densos e com mais atratores de deslocamento, seriam escanteados. O mais surpreendente disso é que primeiro se estimulou esse crescimento fora do centro, com a construção da Terceira Perimetral, para depois se ignorar a existência dele!
Linha 2 - Proposta Completa |
Esse tipo de pensamento tem origem longe: trata-se do calejado sistema de ônibus de Porto Alegre, que prioriza o deslocamento dos Bairros para o Centro, de maneira radial. Tornou-se evidente nos últimos anos a insuficiência desse modelo: basta observar a superlotação constante dos ônibus das linhas transversais. Isso indica que os residentes dos diversos bairros precisam se deslocar aos bairros percorridos pelas linhas transversais - por coincidência, são os bairros de que falei acima, aqueles que a linha dois proposta ignora. A impressão que fica é que pediram aos projetistas uma "linha dois", e estes entregaram um projeto monolítico sem nenhuma ramificação, passando por lugares importantes da forma que desse, formando um círculo inútil e quase esnobe.
Está na hora de se elaborar soluções mais criativas para os nossos problemas de mobilidade. O projeto de metrô apresentado para a copa era natimorto, já que além de falhar politicamente, também falhava no atendimento à demanda da Zona Norte; seus engenheiros julgavam "muito difícil" a construção do trecho que desafogaria a Av. Assis Brasil. Ora, senhores engenheiros, infelizmente, as demandas de mobilidade não costumam optar pelo fácil, e alguma coisa tem que ser feita. É surreal achar que o horizonte de 2030 proposto nos projetos do metrô seja aceitável para a Zona Norte. Também é surreal achar que um traçado circular é adequado. Como eleitores e usuários, demandamos soluções.
[1] Se o medo é atrasar a obra, como é possível que adiar a assinatura da verba seja melhor? Tal mentira não se sustenta nem à mais rasa das
análises.
Felipe Mobus
E-mail: fmobus@gmail.com
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