Em muitas minorias vemos o autopreconceito se manifestando de forma cruel e estúpida. No meio gay a situação não é diferente. Muitos de nós, gays, discriminamos o outro por ser mais assumido ou afeminado. Estaríamos apenas exteriorizando uma opinião sobre o que pensamos ou mantendo distância daquilo que nos é inerente ? Ou ainda, compactuando com a sociedade machista que nos impõe desde pequenos que homem não chora e menina não joga futebol, por medo de nos descobrirem ?
Há muito tempo vivo na noite gay, por lazer e também profissionalmente, podendo testemunhar vários casos onde repudiam o fato de um menino ser mais delicado ou de uma menina ser mais masculinizada. Onde estão os verdadeiros valores e quais seriam eles ? Onde fica a essência do ser humano ? Será que ele é assim por opção ? Acredito que não. Muitos acreditam que o fazem pra chocar, mas não creio muito nessa teoria.
Imaginem se todos nós, gays, pudéssemos ter uma postura dita “heterossexual”, podendo livremente sair às ruas sem preocupar-se se alguém iria rir, apontar, cochichar, debochar... Acho que preferiríamos isso ao que somos, em se tratando de pessoas mais afeminadas ou masculinizadas. Acredito que acabaríamos como muitos bissexuais, que ao meu entendimento são “heteroafetivos” (ou seja, apaixonam-se apenas pelo sexo oposto), mas curtem transar com pessoas do mesmo sexo. E transitam livremente pelas ruas, mesmo tendo saído minutos atrás da cama de um gay, onde pode satisfazer seu desejo carnal tranquilamente e sem arrependimentos e retornar para sua vida “normal”.
No meio gay vemos o autopreconceito claramente na noite, sites de relacionamentos, conversas cruzadas. Isso sinceramente me incomoda, por alguns motivos. Primeiro pela não aceitação do seu semelhante, segundo pela “auto-imagem distorcida” que muitos têm de si mesmos. Exemplo: o cara acha que não é afeminado e detesta quem o seja, não se relaciona, etc... ainda tenta justificar dizendo que é questão de gosto e não tem nada contra. Basta observar os trejeitos que nós, em sua maioria temos, e também as pessoas com as quais convive ou anda nas baladas. Difícil enxergar nessa roda, por exemplo, um travesti. Logo, aquele papo de “pra amizade serve” vai por água abaixo. Pois a maioria acha que é “queimação de filme”. Não sejamos hipócritas, apenas isso...
Flávia Collins, 30 anos, travesti (Rio Grande do Sul) acredita que “o preconceito no meio GLS se deve ao resquício de uma sociedade machista, “heterossexualizada” demais, face à criação dada pelas gerações anteriores.” E ressalta que grande parte das pessoas que afirmam ter uma postura condizente a seu sexo transforma-se entre quatro paredes. Afirmando que esse tipo de pensamento e atitude, que segrega em gêneros de afeminados, travestis, machos e mulheres masculinizadas; advém da mesma essência, ou seja, os homossexuais. Incoerência total.
Aurélio Costa, 38 anos, professor universitário, gay não assumido (Paraná) acha que o preconceito gira em torno das afetações, melhor dizendo: o extremo. “Gosto muito de História e lendo diversos livros fica claro que a homossexualidade faz parte do mundo há bastante tempo. Na Grécia antiga os soldados levavam para os campos de batalha parceiros para satisfazer seu apetite sexual, não sendo discriminados por praticarem sexo com semelhantes. Acredito que o preconceito se dá em função de muitos (as) quererem se igualar ao sexo oposto, tornando-se figuras caricatas, conhecidas como “bichas poc poc” e outros tantos termos. Meu negócio é homem, se curtisse afeminado, ficaria com uma mulher de vez. Amizade sem problema nenhum, tenho 2 amigos “mulheríssimas” e os considero como amigos de verdade. Trabalham comigo, vou a cantina com eles e até baladas hetero. Sem problema algum, minha família os conhece e adora. Fui a SP no São Paulo Fashion Week e andamos de mãos dadas na Av. Paulista. Meu amigo dizia: desencana, não tem nenhum conhecido aqui.”
Talvez nossa sociedade atente muito para o sexo biológico acreditando que ele vai determinar a postura e a maneira de amar das pessoas. Eu entendo que o fato de ser afeminado nos gays e masculinizado de lésbicas apenas reflete a identificação que eles têm com o sexo oposto. Não necessariamente para chocar, mas questão de essência mesmo.
O problema é que isso contribui tão somente com o preconceito existente e enfraquece o movimento, pois se não temos aceitação dentro do meio, imagina vindo de fora. Não é questão de querer que todo gay saia do armário, o que acho que ajudaria em muito ao combate contra o preconceito, pois tornaria muito mais evidente e natural sob o olhar de quem não aprova, demonstrando que somos normais e capazes como qualquer heterossexual; mas compreender a atitude de alguém que apenas está sendo ele mesmo.
Pense nisso...
Dimi Aguiar
E-mail: dimitri.aguiar@hotmail.com
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