Minha coluna de hoje foge à regra e deixa de ter a temática LGBT como foco. Em tese, ao menos. Quero dividir com vocês um pouco das minhas últimas experiências. Trazer à tona o que ando percebendo das relações humanas, da convivência, dos sentimentos que envolvem gays e heteros.
À beira dos 40 anos resolvi mudar radicalmente, abandonei família, amigos e meu chão para vivenciar novas experiências, aprender uma nova profissão, amadurecer e tentar escapar da mesmice. Encontrei coragem e força nem mesmo sei de onde para tudo isso, nunca imaginei que fosse capaz, na prática, de explorar tanto minhas motivações. Mudei de casa, de Estado, de padrão de vida. Encontro-me num quarto alugado temporariamente, estudando após quase 11 anos de formado. O que normalmente se faz aos 18 anos, está me acontecendo aos 37.
Aqui estou começando a ter contato com pessoas de diferentes níveis, culturas e vivências. Onde moro encontrei uma maranhense e sua filha. Estão aqui em São Paulo para o tratamento renal da menina, que tem um aspecto já doentio. A mãe é muito falante e consegue sobreviver aqui de doações de irmãos e amigos. Gasto com aluguel, comida, tratamento da filha. Não tem previsão de quando voltarão para casa, futuro incerto ditado pela doença que consome o ar dessas duas pessoas. Apesar de todas essas arbitrariedades e com pouca intimidade, por duas vezes ela me ofereceu um prato de comida. Não sei se pelo fato de não me ver preparando comida na cozinha comunitária ou por achar que eu estava precisando.
Hoje chegou uma pernambucana, que já vivia aqui com o filho de 15 anos, mas haviam ido passear em sua terra natal. Ela voltou sem o menino. Falou o dia inteiro nisso, como se estivesse irritada com a decisão dele em ficar com o pai. Agora, voltando da aula, sendo o quarto dela ao lado do meu, ouvia a mesma conversa sobre o problema. Triste mãe que após sair de casa com um dos 2 filhos, acabou perdendo-o também, se encontrando sozinha agora.
Ontem, enquanto fumava um cigarro na rua, já que aqui não se fuma em ambientes fechados, nem de uso comum, encontrei pela segunda vez uma moça que já está na reta final do curso. Conversávamos sobre o material solicitado pelos professores no início do curso, algo absurdo de tão caro. Ela comentava que a maioria deles usou apenas uma vez e que poderia me dar, não vender, pois não usaria mais. Refutei dizendo que poderia pagar um preço menor, o que normalmente fazem vendendo material usado. Ela então me surpreendeu dizendo que o que eu não fosse usar, passasse adiante, assim como ela estava fazendo comigo.
Todas estas histórias, vinculadas à minha se resumem em nada. A oferta de material e comida, vindos de pessoas totalmente estranhas me faz acreditar que ainda existem solidariedade e bondade nas pessoas. A comparação com a história da mãe que perde a convivência com o filho, a exemplo da minha que ficou em Porto Alegre, mesmo numa situação bem diferente e temporária, me faz agradecer a toda essa força que nos rege e ampara, seja de onde vier e qual nome tiver.
E assim as relações humanas se constroem, lado a lado, sem que a vida dê uma trégua em função dos nossos problemas, sejam eles maiores ou menores, mas problemas de fato. O ser humano anda tão fora de si que muitas vezes não presta atenção nessas mínimas coisas, porém de alta importância para cada uma dessas pessoas.
Há poucos dias me dei conta de uma situação atualíssima. Até pouco tempo as pessoas se visitavam, mais adiante telefonavam, mandavam e-mail ou simplesmente agora, numa escala evolutiva (ou destrutiva) se falam pelo msn. A situação de conviver consigo mesmo, apenas para suas coisas se molda de tal forma que mesmo tendo alguns amigos on line no msn, passamos a nos comunicar pelo facebook. Não seria mais fácil chamar, em tempo real, no msn e conversar ? Seria essa fase de exposição trazida pelas redes sociais que hoje torna as pessoas mais distantes ? Sei lá... fato é que o distanciamento é mais visível.
Despeço-me, hoje, com o trecho de uma música que traduz bem tudo isso, de um compositor chamado Vander Lee...
“SABE O QUE EU QUERIA AGORA, MEU BEM...
SAIR, CHEGAR LÁ FORA E ENCONTRAR ALGUÉM
QUE NÃO ME DISSESSE NADA
NÃO ME PERGUNTASSE NADA TAMBÉM
QUE ME OFERECESSE UM COLO, UM OMBRO
ONDE EU DESAGUASSE TODO O DESENGANO
MAS A VIDA ANDA LOUCA
AS PESSOAS ANDAM TRISTES
MEUS AMIGOS SÃO AMIGOS DE NINGUÉM...”
Beijo e até a próxima.
Dimi Aguiar
E-mail: dimitri.aguiar@hotmail.com
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